Coroa Mistérica

Na Idade Média, chamava-se a iconografia com o nome de “Bíblia dos pobres”, porque ajudava na compreensão dos mistérios expressos pelas imagens, em um tempo em que poucos tinham acesso à palavra lida e escutada. A verdadeira função dos ícones é ajudar-nos a contemplar o mistério que representam, a evangelizar nossa oração e despertar em nós o desejo pelo sagrado e pela beleza.

A Coroa Mistérica é composta por quinze quadros que representam as solenidades e festas do ano litúrgico, quase todos baseados nos trabalhos do iconógrafo russo do Século XV, Andrei Rublev. No centro está o Pantocrator, a história orientada ao Cristo que vem. À esquerda estão as pinturas que representam a vida terrena de Cristo, e à direita a vida celestial.

Pantocrator

Sua figura capta o olhar de quem entra na Igreja, se desprende do fundo de ouro parecendo vir ao nosso encontro e fazer-nos partícipes da transfiguração final e vitoriosa, como expressam suas vestes brancas. Em sua mão esquerda, está o Livro da Vida, no qual se lê “Amai os vossos inimigos”, palavra coração da Nova Aliança e “Venho em breve”, palavra de exortação e convite à perseverança. Seu corpo está inscrito nas três esferas cósmicas. A esfera azul representando a terra, a segunda negra representa a morte que circunda a terra e a terceira esfera celeste que representa o céu. A figura de Cristo destrói o círculo da morte e une o céu com a terra. Os quatro ângulos vermelhos laterais são imagem dos evangelistas que anunciam a segunda vinda de Cristo.

Anunciação do anjo a Maria

O ícone representa o momento da saudação do Anjo Gabriel a Maria chamando-a de “cheia de graça” e lhe anunciando a concepção nela do Filho de Deus. As mãos abertas de Maria e todo o corpo indicam sua acolhida e docilidade à vontade divina, cheia de humildade, prestes a dizer seu “Faça-se”. As estrelas na cabeça e no ombro indicam sua virgindade antes, durante e depois do parto.  A Virgem está em sua casa num trono, a tela vermelha sobre o teto indica, de fato, que a cena é no interior de uma casa. O Anjo Gabriel com a mão direita abençoa a Virgem e com a esquerda segura o bastão do mensageiro. Deus manda seu Espírito Santo em forma de pomba, que desce como raio de luz sobre Maria.

Natividade do Senhor

A Natividade é a festa da Encarnação ou festa das luzes. A estrela de Belém ilumina todos os personagens do ícone, o raio que desce até a estrela significa a essência única de Deus e os três raios que descem dela indicam a participação das três Pessoas Divinas. A manjedoura em forma de tumba prefigura a morte de Cristo e as faixas que envolve o menino serão abandonas no sepulcro na ressurreição. A Virgem está sob um grande manto púrpura, cor da realeza. Na frente de São José está o demônio com aparência de pastor. A auréola ao redor da cabeça de São José já o faz vencedor da tentação universal: “é impossível que a natureza divina se encarne”. Acima à esquerda estão os reis Magos. Os anjos no centro adoram o menino e o anjo acima à direita se inclina aos pastores expressando a ternura e proteção do anjo da guarda.

Batismo do Senhor

O Batismo do Senhor é o seu Pentecostes, o céu se abre e o Espírito Santo desce sobre ele como uma pomba. Com sua mão direita, Cristo abençoa as águas e as prepara para que sejam as águas do batismo que trará vida nova ao homem. São João Crisóstomo comenta: “A imersão e a emersão são imagens da descida aos infernos e da ressureição”. João Batista está vestido de pele, símbolo de seu ser profeta e mártir, e a árvore com o machado é imagem de seu ministério profético que anuncia à conversão. Os anjos são diáconos no serviço litúrgico do Batismo, prontos para secar e revestir o batizado.

TRANSFIGURAÇÃO

A transfiguração é a visão de Deus, da Santíssima Trindade. Cristo aparece no esplendor da glória divina, simbolizada pelo branco de suas vestes. Elias e Moisés ao lado de Jesus são os profetas que tiveram a visão de Deus e que anunciam a vinda do Messias. Suas túnicas têm formas afiadas porque a Palavra de Deus proclamada é “mais penetrante do que qualquer espada de dois gumes” (Hb 4,12). Cristo, no centro de círculos concêntricos, que representam as esferas do universo criado, fala com eles de sua Paixão gloriosa. Pedro, à direita, está de joelhos; João, ao centro, cai dando as costas à luz; Tiago, à esquerda, foge e cai para trás. Eles são testemunhas da Transfiguração que é uma breve aparição do oitavo Dia, da “Nova Terra” entre nós.

ENTRADA EM JERUSALÉM

A entrada de Jesus em Jerusalém estabelece o início da semana da Paixão. Cristo tem na mão esquerda um rolo: “E então eu disse: Eis que venho. No rolo do livro foi-me prescrito realizar tua vontade” (Sl 40, 8-9). Atrás de Jesus estão os apóstolos. Diante de todos está João, o discípulo testemunha da Paixão, e Pedro, vestido de amarelo como sinal de sua tríplice negação, traje que o acompanha que nos lembra que mesmo com nossas traições podemos ser santos nos apoiando na palavra de Cristo. Entre os que aclamam Jesus há muitos ricos e uma criança filha de pobres, que põe a túnica no caminho, os “pequenos” acolhem o Messias. À direita está situada Jerusalém e, sobre a rocha, uma árvore, símbolo da Igreja.

A ÚLTIMA CEIA

O ícone apresenta a Última Ceia, Cristo se prepara para passar desse mundo ao Pai. A túnica preta que o envolve significa sua Paixão e morte: é noite. Judas, o traidor, está vestido de azul e vermelho, símbolo do amor ao mundo e à sua glória. João reclina a cabeça sobre o peito de Jesus. Sobre a mesa, estão presentes os sinais da Eucaristia: o cálice de vinho e o pão. “Isto é o meu corpo”, “isto é o meu sangue” (Mt 26, 26.28).

A CRUCIFIXÃO

O amor toma sobre si o pecado do mundo para perdoar a todos os pecadores. O pé da Cruz está sobre uma caverna escura onde repousa a cabeça de Adão. Cristo reclina a cabeça na Cruz, na vontade do Pai, e seus braços abertos são sinal de total doação. Maria e João estão ao pé da Cruz. Este ícone capta o momento em que Cristo diz “Mulher, eis o teu filho” e “eis a tua mãe” (Jo 19, 26-27). Maria, com as mãos estendidas em sinal de acolhida, recebe na pessoa de João a todo o cristão. O segundo plano arquitetônico mostra as muralhas de Jerusalém. Cristo oferece o verdadeiro culto a Deus no novo templo que é o seu corpo crucificado por amor.

DESCIDA DA CRUZ

Cristo, quando despontava o sábado, é retirado da Cruz. Seu corpo está marcado pelos açoites, seu lado traspassado e seus pés e mãos perfurados. Ele está rodeado por uma profunda piedade: São João beija sua mão; José de Arimateia, de pé, volta-se para Cristo; Nicodemos abraça seus pés e as mulheres atrás de Maria desoladas representam o drama da humanidade frente às dúvidas sobre o sofrimento. A Virgem, com dor medida e serena, recebe em seus braços a cabeça de Jesus, os dois se entrelaçam em um só ato de amor, ela olha para o céu com olhar de fé. Diante da pedra sepulcral está o lençol que envolverá o corpo de Jesus: é um anúncio de ressureição. No centro está a Cruz vazia, que convida os cristãos para subir nela.

DESCIDA AOS INFERNOS

Cristo desce aos infernos como sol que dissipa para sempre as trevas da morte, para arrancar os homens da escravidão dos pecados e introduzir toda a humanidade no Paraíso. O círculo preto simboliza a morte que Cristo atravessou. Ele agarra Adão e o atrai para si. Eva está em frente a Adão, suas mãos estão cobertas porque tocaram o fruto proibido. Cristo tem a veste dourada, resplandecente da glória divina. Debaixo dele, caem despedaçadas as portas do inferno. Os dois grupos de figuras representam os profetas e os justos que esperam o Salvador.

RESSURREIÇÃO – O TÚMULO VAZIO

As mulheres, com vestes de cores crepusculares, noite cedendo à aurora, encontram o túmulo vazio. Elas traziam nas mãos pequenas bolsas com óleos aromáticos e mirra para embalsamar o corpo de Jesus. Um anjo, com vestes douradas, indicando o túmulo e as faixas mortuárias, está sentado sobre a pedra que fechava o sepulcro. Ele leva a boa notícia que Cristo ressuscitou e as mulheres guardam na fé este anúncio. Maria Madalena é a mulher que está com uma auréola, ela é imagem da Igreja, à qual o Senhor deu uma nova natureza.

APARIÇÃO AOS APÓSTOLOS

Jesus aparece inesperadamente, estando as portas fechadas, o que explica a surpresa e reação dos apóstolos. Ainda que o corpo ressuscitado não necessite de alimentos para nutrir-se, o Senhor confirma aos discípulos a verdade de sua Ressurreição com estas provas: convidando para que o toquem e comendo em sua presença. Os apóstolos, em primeiro plano, são Santo André e São Pedro, que representam respectivamente a Igreja do Oriente e do Ocidente.

ASCENSÃO AOS CÉUS

Com a ascensão Cristo exaltou o homem. Nossa humanidade é introduzida na existência celestial através da humanidade de Cristo. Em um círculo de esferas cósmicas, sustentado por dois anjos, Cristo estende a mão direita como um gesto de benção de envio, na mão esquerda ele tem o rolo das escrituras que contém o anúncio da Boa Notícia. A Virgem está entre dois anjos abaixo de Cristo, que é a sua cabeça. A extremidade dos braços dos anjos e os pés da Virgem formam os três pontos de um triângulo, símbolo da Santíssima Trindade. No grupo dos apóstolos, à direita da Virgem, está Pedro; à esquerda, São Paulo, que não foi testemunha da ascensão, mas que pertence ao núcleo dos apóstolos.

PENTECOSTES

Pentecostes é o envio do Espírito Santo da parte do Pai, a Santíssima Trindade vem habitar no homem. É a festa do nascimento da Igreja. Cada apóstolo recebe uma língua de fogo pessoalmente, eles têm em sua mão um rolo, símbolo da pregação da Boa Notícia. O personagem vestido de rei no inferior do ícone é o cosmos. Está rodeado de um arco preto, sinal de que o universo está prisioneiro do príncipe deste mundo. Em suas mãos está um pano com doze rolos, símbolo da pregação dos doze apóstolos, que liberta e transforma o cosmos prisioneiro da morte. A Virgem está no centro, aquela que recebeu o Espírito Santo na concepção tinha que estar presente na descida do Espírito Santo sobre os apóstolos.

DORMIÇÃO DE MARIA

A Tradição da Igreja e dos santos Padres professam sua fé na elevação ao céu da Virgem. Maria é “morada de Deus”, completamente consagrada a Ele tanto no corpo como na alma. O corpo de Maria plenamente santo não poderia conhecer a corrupção do pecado. A assunção é o anúncio da Ressurreição de nossos corpos no fim dos tempos. Os apóstolos expressam profunda tristeza porque perderam aquela que também é sua mãe. São Pedro incensa o corpo da Virgem. No centro está Cristo Ressuscitado que sustenta em suas mãos a alma de Maria envolvida em faixas. Na parte superior está Maria com uma veste branca, sentada em um trono. Logo acima se vê um pedaço do céu, as portas se abrem para receber a Mãe de Deus.